O tão esperado e surpreendente diagnóstico

Bom, minha primeira visita à psicóloga ocorreu no ano 2000, mas por motivos outros. Apenas em 2005 eu tive acesso pela primeira vez a uma consulta por incômodos pessoais e eu já tinha uns 14 anos de idade. Fui atendida pelo SUS numa policlínica, era uma psicóloga bem jovem e eu havia sido encaminhada pelo Posto de Saúde. Era uma escuta superficial, ainda não sabia como expressar meus sentimentos, reproduzia aquilo que escutava em casa sem maiores críticas. Eu fui fazendo pouco caso do meu quadro porque ainda consegui mantê-lo sob controle, apesar das angústias clássicas.

O tempo foi passando e eu só conseguia pensar na minha aprovação numa universidade pública. A frustração é quase insuportável, hoje eu entendo que qualquer forma de “não” percebida por mim é um gatilho. Isso invalida completamente o meu valor enquanto ser humano. Se eu não obtivesse a aprovação seria uma sentença de fracasso no meu universo.

Me sentia incapaz, só tinha tido algumas aulas extra particulares de exatas e mal conseguia frequentar as aulas regulares do último ano do colégio. Ainda conciliava com um curso técnico e era pesada demais aquela rotina. Minha fobia social já dava seus indícios desde então, mas eu não conseguia perceber. A sensação de esgotamento também. Quem não me conhece a fundo supõe que eu seja super amigável, simpática, doce. E não que eu não seja, mas é tudo uma máscara, no fundo eu me sinto confortável na minha solitude.

Ter meu espaço pra cuidar de mim e fazer as coisas que eu gosto, fugir da aprovação dos outros traz uma paz incomensurável. É a falta do equilíbrio, ao mesmo tempo que busco atenção quero meu espaço. Confesso ser desafiador esse processo de dar a cara a bater trazendo a público relatos tão íntimos dessa minha experiência chamada vida. Consegui ter um resultado favorável na prova e me livrei do peso de uma tonelada. A partir daí confesso que foi uma jornada árdua até conseguir concluir o curso.

Algumas vezes cheguei a procurar apoio psicológico meio que emergencialmente. A primeira vez desde 2005 foi no ano de 2012. Fabiana, até hoje eu gostaria de me desculpar com você por ter me sabotado e sumido tanto. Um clássico borderline nos consultórios. Eu não tive culpa, eu não tinha consciência, preciso desculpar primeiramente a mim mesma e entender a minha limitação. E o principal: eliminar desculpas quaisquer que a gente inventa pra mentir pra nós mesmos. Faltas injustificadas, atrasos. Abandono. Lembro como se fosse hoje de ela me perguntando: “Mariana, você é feliz?” e o quanto eu nunca havia parado para analisar essa questão. A verdade é que eu não era. Eu não gostava de tomar florais. Aquilo não me ajudava em nada. Confesso ter tido muita revolta em não encontrar uma resposta em lugar algum para o meu sofrimento.

No ano seguinte procurei ajuda ambulatorial no HC, mas acabei por não dar continuidade. 2013 foi um dos piores anos e das piores crises que tive. No fim do ano ainda me deparei com uma gestação não planejada. Mais alguns anos e uma depressão pós parto me assolou. Passei a ser atendida por uma psicóloga da UNIMED que possuía já com uma certa idade e não aconteceu a transferência, não rolou uma confiança. As sessões eram de 30 minutos. Eu gosto de falar bastante e quando eu começava a falar o tempo acabava. Ela me recomendava a procurar ajuda religiosa de qualquer natureza (entendo que com as melhores das intenções), mas aquilo me deixava brava. Não conseguia me sentir à vontade nem ser eu mesma naquelas sessões.

Procurei ajuda novamente de outra especialista e com medicação comecei a responder. Acredito que foi no ano de 2015. Comecei a recuperar meu peso. Porém, com abusos sofridos num relacionamento acabei optando pela constante troca de drogas e não me adaptei com as outras. O paciente não responde bem na primeira tentativa ou precipitadamente acaba resolvendo mudar e perdendo todo progresso que conseguiu. Em outros casos é necessário fazer reajustes algumas vezes até chegar na melhor opção.

O ano era 2016 e recebi uma indicação de uma psicóloga particular amiga da família para ser atendida. A Fabiana número 2 entrava na minha vida. Mais uma vez, desculpas infundadas pra mim mesma, atrasos, falta de pagamento, faltas. Abandono. Cheguei a frequentar por uma boa quantidade de meses, mas sem a constância necessária para evoluir. Gastava o dinheiro com outras coisas, atrasava o pagamento sem a menor necessidade. Faltava ou me atrasava porque na minha cabeça o escritório era muito longe.

Algumas terapeutas já sabendo dessa dificuldade border criam uma estratégia de enviar mensagens de texto antes da consulta para lembrar o paciente e eu recomendo fortemente essa prática. Nos faz sentir queridos. Outros escolhem por encontrar um familiar que possa tutelar o paciente durante esse processo difícil e inicial, pelo menos até que se consiga uma certa autonomia.

Em 2017 eu iniciei num novo emprego e comecei a frequentar os profissionais do convênio médico. Mais uma nova psicóloga que eu não me recordo o nome. Ela tinha na casa dos 30 anos, tinha uma filha criança com meu nome e era super paciente. Eu adorava desabafar com ela. Acabei me irritando também com a duração das sessões: 30 minutos e desisti. Ela me aconselhava a ter lazer e eu só queria sumir. Mas foi aí que veio a virada.

No fim de 2018, doutor Luciano, onde quer que estejas, minha eterna gratidão. Eu tive uma crise e procurei um atendimento emergencial. Meu médico não pôde me atender aquele dia. Crise de enxaqueca e agenda lotada. Foi nesse dia crucial que meus olhos foram abertos que eu não tinha apenas uma depressão. O médico da emergência ao ser por mim questionado levantou algumas hipóteses e eu pedi ao Dr. Luciano (que já me acompanhava) que me abrisse o jogo do que já desconfiava. Ele já sabia o que eu tinha, mas achou melhor me poupar sabe-se lá por qual motivo. Ético? Por achar precipitado? Pra eu não me revoltar ainda mais? Não sei. Ele só me disse que pesquisasse sobre. Foi o que eu mais fiz desde então. Só sei que não parei mais e tenho o propósito de disseminar a palavra border.

Eu fiquei chocada com aquilo tudo. Em ver aquele cid numa declaração médica, o que hoje intitula esse blog. No começo me revoltei, saí adquirindo personalidades de celebridades por achar “cool”. A verdade é que não há nada de legal nisso tudo. Ser diferente é horrível. Eu só quero que isso tudo passe.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: