Preciso falar sobre mudança de humor

Quem já leu alguma definição sobre o transtorno deve ter se deparado com o conceito de instabilidade de humor. Mas como descrever isto da melhor maneira? Trocando em miúdos, num mesmo dia, eu apresento uma diversidade bem contrastante em natureza e intensidade de sentimentos. A mudança ocorre de maneira incontrolável e literalmente em segundos. Eu posso estar chorando bastante e, de repente, sorrir ao mesmo tempo. Lidar com esse turbilhão afetivo é desesperador. É uma tarefa bem árdua de gerir por serem sensações opostas e intensas, causando muita confusão e nos deixando devastados por não sabermos como agir. É bem comum eu ficar super motivada para sair para determinado lugar e, chegando lá, por qualquer pensamento aleatório que eu tiver, estando relacionado a alguma rejeição ou frustração sofrida, o ânimo vai embora e eu já quero voltar.

Eu já convivo com essa oscilação brusca de humor dentro de um mesmo dia há um considerável tempo. Que eu me recorde, desde criança eu já sofria com extrema ansiedade. Precisei criar uma estratégia de sobrevivência no decorrer da minha vida para estudar e produzir nos momentos específicos do dia que eu estivesse empolgada. Até hoje o meu funcionamento é o mesmo. Passo uma hora do dia deitada, estática, sem conseguir expressar o mínimo reflexo e fico ali, aguardando essa fase passar. Na hora seguinte, eu levanto e parece que nada daquilo aconteceu. Realizo várias atividades em pouco tempo, fico super produtiva, esperançosa, faço planejamentos e estabeleço metas. Saio de medrosa à maior conquistadora do mundo. Ainda me surpreende a velocidade e força que essas coisas sempre aconteceram. É como se eu precisasse de mais tempo no dia do que as outras pessoas porque em algum momento será dedicado ao meu sofrimento, ainda que involuntário. É difícil se acostumar ao que é ruim, mas eu suponho que tenha me adaptado a esse meu jeito. Sempre deu certo assim, por pior que seja e cá estou eu.

É sempre uma incógnita como eu vou estar no minuto seguinte. Raivosa, amorosa, feliz, ansiosa, medrosa, otimista, depressiva. Quem sabe? Só sei que monotonia não combina comigo. Sem sombra de dúvidas queria ser alguém equilibrada, estável, assim fica muito mais fácil administrar as coisas, mesmo que não tenha tanta diversão. Quem sabe assim eu seria mais compreendida. As pessoas acham que eu me isolo, me afasto, mudo de opinião, não interajo propositadamente. Isso me gera muito rancor, infelizmente. Elas não são obrigadas a sentir como eu sinto, mas dói demais. Eu tenho feito um esforço sobre humano pra me adaptar, mas vou finalmente aceitar que não preciso estar bem com isso. Faço meu tratamento e não devo dar ouvidos a essas críticas que só atrapalham minha evolução pessoal. As feridas são minhas, as dores também e só eu sei onde apertam. Para concluir, onde para alguns a novidade pode excitar, a mesmice mata. Hoje eu só quero paz. Rotina. Amor. Tudo de mais lindo que a vida puder me oferecer. O caos ficou pra trás.

Você sabe o que é splitting?

Aqui estou eu novamente numa relação de amor e ódio. Eu não sei não amar e odiar alguém em um segundo e outro. Agora eu acredito que aquela pessoa me ama e eu posso confiar 100%, quase uma ficção romântica e em minutos já apago todas fotos, mensagens, deixo de falar e desejo tudo de ruim. E posso afirmar que por mais que eu consiga imaginar a dificuldade dos outros em lidar com isso, é insuportável habitar nesse caos. É nunca saber em quem confiar, é sempre viver na defensiva, é ter um sentimento de vingança muito latente mesmo que eu não queira. Hoje eu sei que existe uma definição para isso, para o meu disfarçado “desapego”, para deixar de falar com as pessoas sem motivo aparente, por coisas reais ou criadas e que existem só na minha cabeça.

Por exagerar nas reações de raiva e desprezo quando aquelas falhas dos outros não mereciam tudo aquilo, eu fui desproporcional não em todas as vezes, mas em muitas. E todo mundo erra, eu também erro. Minhas relações pessoais e amorosas poderiam ter sido diferentes se eu tivesse sabido disso antes e tivesse tolerância.

Às vezes (quase sempre) todo meu desapego é só porque eu não quero parecer boba, e principalmente, quero me proteger. Já fui abusada, abandonada, ferida e é legítimo eu querer mesmo que inconscientemente me poupar de sentir tanta dor de novo. Os splitting não deixaram de acontecer, para a minha tristeza. Eu continuo apagando tudo, me odiando por ter acreditado em cada palavra vã novamente, aí é que vem a grande sacada. Não existe ninguém todo bom, nem todo mau. Embora não saiba como fazer parar, eu posso criar estratégias de como gerir. E se eu não ficasse destruída a cada promessa não cumprida, a cada traição? Isso é possível? Talvez não. Eu sou humana e sinto demais, seria quase uma missão impossível querer mudar minha essência tão radicalmente. Se eu passar a confiar menos e fazer dessas relações interpessoais coisas tão centrais na minha vida, ao perdê-las não me faltaria o chão. Sabe aquele ditado de se encha de hobbies e razões que valem a pena se viver? Nem falaria aqui pra deixar de acreditar na humanidade porque tem muita gente bacana por aí e uma vida sem sentimentos seria muito pobre, mas falo em se resguardar, se precaver é sempre bom. E se ainda assim nada funcionar, priorize as suas metas e aquela mensagem visualizada e não respondida não vai nem ser notada. (Y)

Baixa tolerância à frustração e sensação catastrófica

Eu já li algumas expressões que tentavam descrever o excesso borderline. Nós não terminamos um relacionamento, entramos em luto. Não choramos, desabamos. Não sofremos, morremos por dentro. Tudo que pode parecer simples para alguns tem outro peso na forma como eu sei sentir. Sou exagerada e compreendo isto. Tenho uma tendência natural a pensar em resultados catastróficos, embora tenha uma certa intuição otimista lá no fundo acabo aterrorizada com a possibilidade da não aprovação, do abandono, da escassez. Como isso é prejudicial.

A ansiedade exagerada acaba trazendo muito peso a todo o processo, meus dias parecem não ter fim. É matando um leão por dia para superar a ideia de que o pior está sempre prestes a acontecer, e esse estado de hiper vigilância me persegue e não tem fim. Pareço ser uma pessoa mais responsável, madura e com preocupações legítimas sobre o futuro, mas na verdade isso só retrata minha imaturidade em lidar com tolerância as frustrações naturais que a vida nos propõe.

Eu me perdoo por isso até porque hoje eu entendo a minha condição e limitações a ela associadas. Não somos culpados. Por mais que os transtornos mentais são deveras mais estigmatizados que uma doença física, eu não escolhi ser especial. Eu procuro olhar todas as particularidades e ouso dizer qualidades que adquiri em decorrência disso. Sou uma pessoa super doce, inspirada, empata, sensível, com uma inteligência acima da média para uma multiplicidade de temas. E a vida é desafio. Minha terapeuta falou que não estamos aqui na Terra sem nenhum motivo. Eu não quis entrar no mérito dessa discussão sobre pós-morte, ainda não tenho opinião formada sobre isso. Mas, de fato é certo que todos temos o propósito de nos moldar e entender nossas fraquezas. A minha é entender que eu não vou obter êxito em tudo, que tudo não vai acontecer no tempo que eu quero e que também está tudo bem demonstrar interesse numa relação e que o medo de perdê-la não me impeça de ganhar. Se acabar, se eu não conseguir, eu vou apenas seguir em frente, como tudo na vida. Não vai mais doer tanto. Se o término não me destrói tanto, não há motivos para deixar de tentar. Assim, eu vou, aos poucos, obtendo melhores resultados.

Um diagnóstico é realmente importante?

Com todo respeito a todos profissionais que, com muita empatia, têm me prestado atendimento e salvado minha vida. Mas já ouvi que essa questão de diagnóstico é relevante apenas para direcionar o tratamento e medicação, mas que não deve servir para colocar ninguém dentro de uma caixa. Inclusive, muitos transtornos possuem atributos em comum, sem falar nas comorbidades, ou seja, quando não se tem um diagnóstico fechado e características de mais de um.

Eu tenho que discordar. Claro que somos particulares, duas pessoas com o mesmo diagnóstico não serão iguais, nenhuma jornada é igual a outra. Dito isto, vamos ao que interessa. Quanto a minha experiência, ter recebido um diagnóstico central (depressão moderada, ansiedade generalizada, fobia social vêm junto no combo) foi fundamental para eu compreender o que estava acontecendo comigo. Todos os dias eu agradeço por aquele psiquiatra ter adentrado a minha vida.

O sofrimento só é agravado quando ficamos sem nenhuma referência. Qual o motivo de nos comportarmos de determinada forma? Eu só queria ter tido acesso a uma explicação precoce. Ter encontrado essa resposta hoje me permite entender a origem de muita coisa e até mudar. Psiquiatras e psicólogos, eu não sei quais as razões de vocês, se existe algum código de ética, talvez se por demorar muito para que o martelo seja batido, por haver tanta confusão, pelos transtornos serem parecidos. Independente do que seja, trabalhando ou não com hipóteses, mesmo que nada esteja prontamente definido, peço encarecidamente que não nos deixem desinformados. Hoje eu entendo como eu penso, sinto e como vou agir e assim posso administrar tudo isso com mais assertividade para uma vida mais funcional e que vale a pena ser vivida.

Como eu me enxergo enquanto uma mãe que tem borderline

Segundo domingo de maio. Hoje é o dia das mães e vou retratar a questão das mães border. Não é fácil falar sobre essa temática sendo border, mais ainda diante das cobranças sociais que já permeiam a maternidade. Protelei um pouco hoje pra escrever esse texto. Aqui não vou apresentar uma visão romântica, mas real, fatídica.

Me tornei mãe em 2014 e não foi algo planejado. Eu não tinha condições de me tornar mãe, muito menos naquelas circunstâncias. Eu estava enfrentando uma das minhas piores crises. Precisava ser medicada, acompanhada e escutada por um profissional. Li num artigo científico que a mãe border tem uma limitação em identificar as necessidades da criança além das suas próprias. E não, não é que sejamos más. Adultos borderline têm a mesma maturidade emocional de uma criança. Somos profissionalmente comprometidas, apaixonadas, dedicadas, mas em se tratando do afetivo, sempre em busca de acolhimento. E se pecamos, é sempre por desespero. Excesso de sentir, descontrole. É uma deficiência cerebral, não é por escolha. Tudo numa tentativa de se auto preservar e sobreviver.

De maneira nem tão consciente assim, eu nunca desejei a maternidade. Eu não me percebia como consigo agora, como cita minha psicóloga, mas carregava comigo essa intuição. É bem provável que se tivesse ocorrido por escolha própria eu jamais tivesse me tornado mãe. Esse sempre foi meu pensamento e eu ainda titubeio bastante se desejo ter mais filhos. Muito provavelmente não. A insegurança é grande e meus sonhos são a maior prioridade. Acredito que não consiga viver a mesma experiência tudo de novo. No momento não estou numa nova relação e faço uso de contracepção de longa duração. Depois vou entrar nesse mérito aqui em algum post.

A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, referência nesses transtornos, relata com maestria que “até uma torneira que não abre se torna gatilho” e é verdade. Fico abismada com a profunda compreensão que recebemos por parte desses profissionais tão competentes. A validação e tradução da nossa dor faz toda diferença nessas horas e salva vidas. A sensibilidade é tanta, vivemos tão à flor da pele que qualquer coisa que causa frustração machuca. Machuca muito. Um olhar, uma palavra, ir ao banheiro e estar ocupado, alguém ficar na frente interrompendo o caminho, chegar ao ponto e perder o transporte. Agora imagine não ser aceito numa oportunidade de emprego, terminar um relacionamento ou a responsabilidade que permeia criar outro ser.

Um ser que depende de você pra existir. Eu não tive essa competência, mas faço de tudo para ter dizendo sim ao meu tratamento. Se não fosse minha família, nada disso seria possível, eu devo admitir e ser eternamente grata por isso. E qual a moral da história? É saber dar o uso com sabedoria de todo esse aparato de informações. Me tornar todo dia 1% melhor por mim e pela minha filha que num futuro próximo vai encontrar uma melhor versão de mim. É sobre ser perfeita? Não. Nem ser a melhor mãe do mundo, mas é sobre estar em constante evolução.

Como eu aprendi a importância do autocuidado

Vamos falar sobre autocuidado. O quê vem a cabeça quando se escuta falar sobre autoestima? Cuidar do corpo? Ir à academia, ao salão de beleza, se vestir bem? Também. Mas é muito mais do que isso. É claro que esses rituais também estão inclusos. Por exemplo, costumo usar hidratante para o corpo todo depois dos banhos. Isso pode parecer pequeno, mas é carregado de simbolismo para quem tem problemas de autoestima. Mas o cerne da questão é aprender a se priorizar.

Medir as consequências dos atos, ponderar, racionalizar e avaliar apenas aquilo que vai nos fazer bem. Não há nada de errado em querer o melhor pra si. Há tudo de errado na auto depreciação. Em fazer sacrifícios para ter o outro ao seu lado. Se colocar em situações de risco para agradar a terceiros. Dizer “sim” querendo dizer “não” para não gerar conflitos. Abrir mão das suas preferências. Sempre ser tanto faz, a opinião do outro sempre vale mais. E assim a vida vai passando e não se é vivida ao máximo. Se tiver de agradar alguém, na hora de tomar decisões, deixe de lado aquele seu eu do passado, agrade a si mesmo. Muito além de aparência, é uma questão de atitudes.

O borderline e a instabilidade da autoimagem

É lugar comum associar o indivíduo border à busca incessante pelo preenchimento de seu vazio crônico através de relacionamentos. Uma explicação pra isso é o empobrecimento em sua constituição do senso de eu. Eu explico.

Desde meus 14 anos que eu venho tingindo meu cabelo e já perdi as contas para quantas cores já mudei. É como se eu não existisse com meu cabelo natural e precisasse de uma nova imagem no espelho pra aliviar esse sofrimento. Eu não sei quem eu sou e aí está a raiz de todas minhas vulnerabilidades. Quando não se sabe quem se é, nem o que se quer, qualquer coisa serve. Nessa pandemia não aguentei e acabei fazendo em mim mesma um novo corte. Fico querendo resistir e permanecer ao natural, com o mínimo possível de alterações, forçar a dar volume a uma personalidade quase inexistente, mas vira e mexe me vem a vontade de voltar para o loiro novamente para confortar meu coração.

Agora que estou fazendo a Terapia Cognitivo Comportamental há mais ou menos um ano (contando o intervalo do início do isolamento), consigo pelo menos perceber meu funcionamento e compartilhar minha visão com vocês para ajudá-los. Hoje eu consigo enxergar um monte de coisas que não conseguia antes e isso é um grande passo. Esta modalidade psicoterapêutica atua na mudança de perspectiva sobre alguns campos da vida e sim, enxergar o copo meio cheio ou meio vazio faz toda a diferença. Suponho que vá conseguir passar mais tempo lidando melhor com minha versão original. Se não conseguir não tem problema em mudar também não, desde que isso não me cause sofrimento. Desde que eu não abra mão dos meus valores quando for necessário, desde que eu saiba me priorizar e aonde quero chegar. =)

Ainda sobre as vantagens de viver offline

Aqui sigo entre um e outro código, numa ansiedade só, mas gostaria de dar uma passada rápida por aqui. Continuando o raciocínio sobre todos os benefícios que obtive desde que saí das redes sociais, há exatamente 9 meses, um dos fatores me chamou mais atenção: o consumismo.

É gritante a influência que essas mídias exercem sobre nossos hábitos de consumo e a minha proposta é refletirmos sobre isso. Em essência esses ambientes sobrevivem com a veiculação de propagandas pagas feitas para um público específico que, voluntariamente, fornece dados demográficos e de preferências. Quando os usuários aceitam essas condições, as campanhas são feitas cada vez melhor segmentadas e sofremos uma enxurrada de anúncios. Acompanhar mais de perto a vida dos nossos é ver anúncios: justificativa de existência das mídias sociais que percebeu a necessidade de sociabilidade humana para faturar.

Eu diminuí de maneira drástica a compra de supérfluos desde que deletei minhas contas. Além de tudo, ficamos querendo impressionar os outros fazendo dívidas desnecessárias. Já existem estudos que apontam não apenas as implicações em transtornos de ansiedade e depressão, como o aumento do volume de compras. Com a quarentena da pandemia então, nem se fala.

Minha tia tá morando comigo e eu só a vejo acessando loja toda vez que está on-line. Há uns dias eu abandonei um carrinho de compras. Por duas vezes cheguei até a gerar um boleto e acabei efetivando o pagamento do último. O tédio e a falta de opções acabam nos conduzindo a comprar itens dos quais não necessitamos. Isso reflete no alcance das nossas metas financeiras, já que estamos gastando com coisas que queremos hoje e não precisamos, como vamos realizar nossos sonhos? Desde criança minha mãe me educou a priorizar educação. Eu ficava sem comprar roupa nova nem o celular da moda, mas o material escolar e a mensalidade da escola sempre estavam em dia.

Muitas vezes ela deixou de comprar coisas pra ela e quando eu era criança e mais ainda adolescente não compreendia a razão real daquelas concessões em nome dos meus estudos. Hoje eu entendo e, inclusive, quitei meu MBA que foi um investimento alto e precisei adiar alguns outros sonhos. Eu sempre achei que não estava me priorizando a cada vez que abri mão dos meus gostos do presente, contudo tenho certeza que orgulho minha mãe e também dou orgulho a Mariana lá de trás. Espero poder ajudar a vocês e a mim mesma no questionamento acerca de cada compra impulsiva realizada e suas consequências.

P.S.: Esqueci de salientar que voltei rapidamente ao Insta pra dar uma espiada e percebi a quantidade absurda de páginas de e-commerce que eu seguia. Suponho que 50%!!!! Saí dando unfollow até desativar minha conta novamente. Se algum dia eu voltar, não quero mais comprar de maneira descontrolada. Selecionarei com critério o tipo de conteúdo que quero consumir. E auto controle, planejamento e meta são tudo pra mim!!

Dando as boas-vindas

Estou iniciando esse blog como resultado do projeto aplicado de conclusão do MBA em Marketing Digital. Minha mãe é quase psicóloga e havia me feito essa sugestão de transformar algo que me tivesse sido ruim em positivo. E, além de tudo, aproveitasse a minha habilidade com a escrita (pra algo de bom esse transtorno havia de servir hehehe).

Pra mim escrever é um prazer e ainda mais sobre uma temática que eu vivencio desde quase minhas três décadas de vida. É basicamente relatar minha experiência comportamental diária e tirar lições disso. Sim, eu percebo sinais já na infância, mas infelizmente não tive acesso à informação de maneira precoce e isso é quase uma regra. Sorte de quem ainda algum dia consegue ouvir falar do transtorno na vida adulta.

Eu sempre convivi com o transtorno do meu jeito, sem tratamento, e não foi nada fácil. A manifestação mais intensa dos sintomas se deu no início da fase adulta, cerca de 18 anos de idade, onde é justamente quando é recomendado o fechamento do diagnóstico.

Era insuportável. Você não aguenta estar dentro de si mesmo, te falta auto controle, auto cuidado. A percepção do mundo é surreal, é única, você acha que só você e mais ninguém enxerga o mundo daquela maneira. Hoje em dia eu consigo entender o motivo daqueles sentimentos, administrar melhor por compreender todo funcionamento e fazer tratamento. Mas ressalto aqui que o principal é a mudança interior. Nada vai funcionar se for um desejo de seus familiares, amigos, terapeutas. Somos nós e mais ninguém os responsáveis pelo nosso destino. O autoconhecimento é a chave da mudança. Espero poder vê-los em breve.

O tão esperado e surpreendente diagnóstico

Bom, minha primeira visita à psicóloga ocorreu no ano 2000, mas por motivos outros. Apenas em 2005 eu tive acesso pela primeira vez a uma consulta por incômodos pessoais e eu já tinha uns 14 anos de idade. Fui atendida pelo SUS numa policlínica, era uma psicóloga bem jovem e eu havia sido encaminhada pelo Posto de Saúde. Era uma escuta superficial, ainda não sabia como expressar meus sentimentos, reproduzia aquilo que escutava em casa sem maiores críticas. Eu fui fazendo pouco caso do meu quadro porque ainda consegui mantê-lo sob controle, apesar das angústias clássicas.

O tempo foi passando e eu só conseguia pensar na minha aprovação numa universidade pública. A frustração é quase insuportável, hoje eu entendo que qualquer forma de “não” percebida por mim é um gatilho. Isso invalida completamente o meu valor enquanto ser humano. Se eu não obtivesse a aprovação seria uma sentença de fracasso no meu universo.

Me sentia incapaz, só tinha tido algumas aulas extra particulares de exatas e mal conseguia frequentar as aulas regulares do último ano do colégio. Ainda conciliava com um curso técnico e era pesada demais aquela rotina. Minha fobia social já dava seus indícios desde então, mas eu não conseguia perceber. A sensação de esgotamento também. Quem não me conhece a fundo supõe que eu seja super amigável, simpática, doce. E não que eu não seja, mas é tudo uma máscara, no fundo eu me sinto confortável na minha solitude.

Ter meu espaço pra cuidar de mim e fazer as coisas que eu gosto, fugir da aprovação dos outros traz uma paz incomensurável. É a falta do equilíbrio, ao mesmo tempo que busco atenção quero meu espaço. Confesso ser desafiador esse processo de dar a cara a bater trazendo a público relatos tão íntimos dessa minha experiência chamada vida. Consegui ter um resultado favorável na prova e me livrei do peso de uma tonelada. A partir daí confesso que foi uma jornada árdua até conseguir concluir o curso.

Algumas vezes cheguei a procurar apoio psicológico meio que emergencialmente. A primeira vez desde 2005 foi no ano de 2012. Fabiana, até hoje eu gostaria de me desculpar com você por ter me sabotado e sumido tanto. Um clássico borderline nos consultórios. Eu não tive culpa, eu não tinha consciência, preciso desculpar primeiramente a mim mesma e entender a minha limitação. E o principal: eliminar desculpas quaisquer que a gente inventa pra mentir pra nós mesmos. Faltas injustificadas, atrasos. Abandono. Lembro como se fosse hoje de ela me perguntando: “Mariana, você é feliz?” e o quanto eu nunca havia parado para analisar essa questão. A verdade é que eu não era. Eu não gostava de tomar florais. Aquilo não me ajudava em nada. Confesso ter tido muita revolta em não encontrar uma resposta em lugar algum para o meu sofrimento.

No ano seguinte procurei ajuda ambulatorial no HC, mas acabei por não dar continuidade. 2013 foi um dos piores anos e das piores crises que tive. No fim do ano ainda me deparei com uma gestação não planejada. Mais alguns anos e uma depressão pós parto me assolou. Passei a ser atendida por uma psicóloga da UNIMED que possuía já com uma certa idade e não aconteceu a transferência, não rolou uma confiança. As sessões eram de 30 minutos. Eu gosto de falar bastante e quando eu começava a falar o tempo acabava. Ela me recomendava a procurar ajuda religiosa de qualquer natureza (entendo que com as melhores das intenções), mas aquilo me deixava brava. Não conseguia me sentir à vontade nem ser eu mesma naquelas sessões.

Procurei ajuda novamente de outra especialista e com medicação comecei a responder. Acredito que foi no ano de 2015. Comecei a recuperar meu peso. Porém, com abusos sofridos num relacionamento acabei optando pela constante troca de drogas e não me adaptei com as outras. O paciente não responde bem na primeira tentativa ou precipitadamente acaba resolvendo mudar e perdendo todo progresso que conseguiu. Em outros casos é necessário fazer reajustes algumas vezes até chegar na melhor opção.

O ano era 2016 e recebi uma indicação de uma psicóloga particular amiga da família para ser atendida. A Fabiana número 2 entrava na minha vida. Mais uma vez, desculpas infundadas pra mim mesma, atrasos, falta de pagamento, faltas. Abandono. Cheguei a frequentar por uma boa quantidade de meses, mas sem a constância necessária para evoluir. Gastava o dinheiro com outras coisas, atrasava o pagamento sem a menor necessidade. Faltava ou me atrasava porque na minha cabeça o escritório era muito longe.

Algumas terapeutas já sabendo dessa dificuldade border criam uma estratégia de enviar mensagens de texto antes da consulta para lembrar o paciente e eu recomendo fortemente essa prática. Nos faz sentir queridos. Outros escolhem por encontrar um familiar que possa tutelar o paciente durante esse processo difícil e inicial, pelo menos até que se consiga uma certa autonomia.

Em 2017 eu iniciei num novo emprego e comecei a frequentar os profissionais do convênio médico. Mais uma nova psicóloga que eu não me recordo o nome. Ela tinha na casa dos 30 anos, tinha uma filha criança com meu nome e era super paciente. Eu adorava desabafar com ela. Acabei me irritando também com a duração das sessões: 30 minutos e desisti. Ela me aconselhava a ter lazer e eu só queria sumir. Mas foi aí que veio a virada.

No fim de 2018, doutor Luciano, onde quer que estejas, minha eterna gratidão. Eu tive uma crise e procurei um atendimento emergencial. Meu médico não pôde me atender aquele dia. Crise de enxaqueca e agenda lotada. Foi nesse dia crucial que meus olhos foram abertos que eu não tinha apenas uma depressão. O médico da emergência ao ser por mim questionado levantou algumas hipóteses e eu pedi ao Dr. Luciano (que já me acompanhava) que me abrisse o jogo do que já desconfiava. Ele já sabia o que eu tinha, mas achou melhor me poupar sabe-se lá por qual motivo. Ético? Por achar precipitado? Pra eu não me revoltar ainda mais? Não sei. Ele só me disse que pesquisasse sobre. Foi o que eu mais fiz desde então. Só sei que não parei mais e tenho o propósito de disseminar a palavra border.

Eu fiquei chocada com aquilo tudo. Em ver aquele cid numa declaração médica, o que hoje intitula esse blog. No começo me revoltei, saí adquirindo personalidades de celebridades por achar “cool”. A verdade é que não há nada de legal nisso tudo. Ser diferente é horrível. Eu só quero que isso tudo passe.